Cinema coreano: conheça a história e evolução

A Coreia do Sul é um dos poucos países onde as produções locais superam os filmes americanos.

O cinema coreano atrai não só a atenção do público da Coreia do Sul, mas também ganham prêmios em prestigiados festivais internacionais de cinema como Cannes, Berlim e Veneza.

É difícil acreditar que, no início da década de 80, o cinema coreano ainda estava sob forte censura do governo.

Como a indústria cinematográfica sul-coreana passou de filmes de propaganda para o prêmio Lion Golfen em Veneza?

É isso que revelaremos neste post!

Cinema coreano: 1919 – 1953

A jornada do cinema sul-coreano está intimamente interligada com a difícil história do país.

Acontecimentos históricos e políticos dificultaram o desenvolvimento da indústria cinematográfica do país, como a ocupação japonesa de 1903 a 1945, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia de 1950 a 1953 e, por fim, os anos de forte controle do governo militar.

Vingança Justa (Uirijok Gutu) foi o primeiro filme coreano, produzido em 1919. A produção era conhecida também como ‘cinema teatral: enquanto um filme era projetado ao fundo, os atores atuavam ao vivo no palco.

Porém, a paixão por kino-dramas durou pouco, pois o primeiro longa-metragem silencioso foi produzido em 1923, Promise under the Moon, e o primeiro filme falado em 1935, The Story of Chunhyang.

Se o diretor japonês Matsujiro Hayakawa (早川 孤舟) foi o primeiro a fazer a história clássica de Chunhyang em um filme em 1923 durante a era do cinema mudo, o diretor coreano Lee Myeong-u foi o primeiro a produzir um filme com som na Coreia com “Chunhyangjeon” em 1935.

 

Entre 1926 e 1932, pequenas empresas coreanas independentes conseguiram produzir filmes nacionalistas. No entanto, os filmes locais e estrangeiros tiveram que enfrentar limitações técnicas e regulamentações rígidas, já que toda produção – estrangeira e doméstica – tinha que ser aprovada pelo governo colonial.

Como as restrições pioraram a partir da década de 1930, a maioria dos filmes de propaganda foram feitos durante esse período. Além disso, a distribuição e a exibição de filmes eram limitadas aos japoneses, cujos cinemas eram de propriedade privada e os lucros da exposição não eram reinvestidos na produção.

Durante a ocupação japonesa, apenas 157 filmes foram produzidos. Todos os filmes produzidos antes de 1934 foram cortados, alterados, destruídos ou mal arquivados e nenhum deles pode ser encontrado em sua forma original.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram feitos filmes de propaganda da guerra.

Entre 1940 e 1945, 21 filmes dos 30 produzidos eram filmes de propaganda que apoiavam o exército japonês.

Em 1942, o governo proibiu a produção de filmes coreanos.

Entre 1945 e 1953, muito poucos filmes foram produzidos e a maioria das estruturas nas quais os filmes eram produzidos foram destruídas durante a Guerra da Coreia.

Cinema coreano: 1953-1979

No final da Guerra da Coreia, Syngman Rhee, o primeiro presidente do país (1948-1960), revitalizou a quase inexistente indústria cinematográfica e decidiu isentá-lo da tributação.

Livre de regulamentação governamental, o número de filmes coreanos produzidos aumentou rapidamente e passou de 5 em 1950 para 111 em 1959.

Fonte: Traces of Korean Cinema from 1945 to 1959 (2003), Korean Film Archive.

À medida que a tecnologia evoluia, as produções locais tornaram-se mais sofisticadas.

E esse período ficou conhecido como “Idade de Ouro”.

Durante essa fase, os principais tópicos abordados pelos filmes eram liberdade e libertação da ocupação japonesa.

Em 1955, foi lançado Chunhyang-jon, o primeiro sucesso de bilheteria sul-coreano.

Em dois meses, 10% dos habitantes de Seul, cerca de 200 mil espectadores, viram o filme.

Número impressionante para a época.

Hanyo, a Empregada de Kim Ki-Young, lançado em 1960, é uma característica importante desse período e ainda é visto como um dos melhores filmes coreanos de todos os tempos (foi posteriormente refeito em 2010).

Aimless Bullet (Obaltan) de Hyun-mok também foi um filme importante para a época. Esse drama de pós-guerra coreano retrata de forma realista a vida de um contador coreano que está lutando para sustentar sua família e encontrar uma posição em uma sociedade em constante evolução.

Mas esse período de renascimento terminou abruptamente em 1962 e Obaltan foi banido.

Após o golpe militar de 1961, um novo governo chegou ao poder e a Lei do Cinema foi editada.

Segundo a nova lei, uma cota limitada de filmes poderia ser produzida e importada.

O número de produtoras também foi limitado e passou de 71 para 16 em um ano.

Filmes sobre assuntos ilegais, como comunismo, obscenidade ou qualquer outro assunto que possa prejudicar a dignidade e a imagem do país, foram censurados.

Em consequência, a produção cinematográfica caiu um terço entre 1969 e 1979.

A popularidade da televisão no final dos anos sessenta também ajudou o público a fugir dos cinemas.

Em 1973, numa tentativa de impulsionar a indústria local, o governo limitou o número de filmes importados nos cinemas. Como resultado, a exibição de filmes de Hollywood caiu sifnigicativamente.

Na década de oitenta, o governo começou a reduzir seu controle sobre a indústria cinematográfica, fazendo ela crescer novamente.

Graças à revisão da Lei do Cinema, em 1984, a produção independente foi permitida sob certas circunstâncias, o que fez crescer o número de novos produtores na indústria cinematográfica.

Embora o cinema tenha permanecido baixa durante este período, a indústria cinematográfica sul-coreana começou a ganhar reconhecimento internacional.

Em 1981, Mandala do diretor Im Kwon-Taek venceu o Grand Prix no Hawaii Film Festival.

Em 1987, Kang Su-Yeon ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza por sua participação em The Surrogate Woman e outro de Melhor Atriz por seu papel em Come Come Come Upward, de Im Kwon-Taek, no Festival Internacional de Cinema de Moscou.

Produções locais vs filmes estrangeiros

No entanto, como os Estados Unidos pressionaram o governo sul-coreano para expandir o mercado, a Lei do Cinema foi revisada em 1984 e 1986, a fim de liberar a importação de filmes estrangeiros, permitindo a distribuição.

Com isso, produtores estrangeiras puderam abrir filiais na Coreia do sul.

Pela primeira vez, os filmes coreanos tiveram que competir em igualdade com as produções estrangeiras.

Os estúdios de Hollywood começaram a abrir filiais no país, lideradas pela United International Pictures (UIP) em março de 1988.

A 20th Century Fox seguiu em agosto de 1988, a Warner Bros. em 1989, a Columbia Tristar em 1990 e a Disney em 1993.

Antes de 1992, os distribuidores tinham o direito de importar um filme estrangeiro para cada quatro filmes coreanos que produzissem. No entanto, a maioria dos distribuidores usou o lucro para investir em imóveis e produziu filmes de baixa qualidade para atender à cota de 4 em 1.

Como consequência, as produções domésticas de baixo custo e baixa qualidade foram esmagadas pelos blockbusters de Hollywood.

Em 1993, a fim de apoiar a indústria cinematográfica nacional, uma cota de tela – estabelecida em 1963, mas totalmente cumprida em 1993 – determinava que cada teatro do país exibisse filmes domésticos por pelo menos 146 dias por ano.

No final da década de 1990, o número de filmes nacionais lançados era um sexto do número de filmes estrangeiros.

Em 1999, 42 filmes coreanos foram lançados na Coreia do Sul, em comparação com 233 filmes estrangeiros no mesmo ano.

Chaebols entram para indústria cinematográfica

O ano de 1992 marca o lançamento do primeiro filme financiado por chaebol (conglomerados coreanos).

A Samsung tornou-se o primeiro chaebol a entrar na indústria cinematográfica ao financiar 25% da Marriage Story de Kim Ui-seok. O filme foi um sucesso de bilheteria, atraindo 526 mil admissões em Seul.

Outros chaebols que se envolveram na indústria cinematográfica no início dos anos 90, como Daewoo e Hyundai.

Após a crise financeira de 1997, muitos chaebols (incluindo a Samsung) abandonaram a indústria cinematográfica.

Com isso surgi uma segunda geração de conglomerados, como CJ, Orion e Lotte.

Os chaebols transformaram completamente a estrutura da indústria cinematográfica, introduzindo um sistema verticalmente integrado.

Eles se envolveram em todas as etapas da indústria cinematográfica: financiamento, produção, exibição, distribuição, vendas internacionais e lançamento.

Os chaebols  também multiplicaram o número de cinemas. O número de ecrãs aumentou drasticamente e passou de 588 em 1999 para 1 451 em 2004.

A CJ, a Orion e a Lotte permanecem hoje como as mais poderosas no setor cinematográfico e ocupam 80% do mercado.

Para além dos chaebols, as empresas de capital de risco também desempenharam um papel importante nos investimentos cinematográficos de 1998 até ao final de 2005.

No início dos anos 2000, o governo também contribuiu para a indústria nacional como participante em fundos de investimento, que incentivam muitos a investir no cinema coreano.

Ultimamente, com a crescente importância das novas mídias, as empresas de telecomunicação, como as operadoras nacionais SK Telecom e KT, começaram a investir na indústria cinematográfica.

KOFIC –  Conselho Coreano de Cinema

Em 1999, o governo criou o Conselho Coreano de Cinema – KOFIC, órgão autônomo que desempenhou um papel significativo no estímulo e proteção da indústria doméstica.

Essa organização foi criada para apoiar e promover a indústria cinematográfica sul-coreana nos mercados local e internacional.

A organização é dirigida por nove comissários, geralmente  profissionais da indústria cinematográfica, nomeados pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo.

O KOFIC ajuda o setor de várias maneiras:

  • fornecendo subsídios e financiamento;
  • apoiando pesquisas e desenvolvimentos;
  • apoiando teatros e produções independentes;
  • ajudando nas atividades de marketing de empresas de vendas coreanas em festivais internacionais de cinema;
  • patrocinando e organizando festivais;
  • e publicando vários livros e revistas em inglês.

Em países estrangeiros, o KOFIC apoia o lançamento e exibição de produções coreanas, incluindo documentários e filmes de animação.

A organização também estabeleceu o Ancillary Market Distribution Management System, uma plataforma de distribuição de conteúdo cinematográfico on-line, protegido por direitos autorais.

Além disso, administra o KoBiz, centro de negócios on-line para relações públicas internacionais de filmes coreanos.

Confira o ranking dos filmes coreanos anualmente aqui.

Por fim, a organização oferece um incentivo financeiro de 25% em dinheiro para o ingresso de empresas estrangeiras na Coreia do Sul e apoia projetos de co-produção durante seu estágio de desenvolvimento.

Em 2012, o KOFIC apoiou 33 filmes de produção conjunta sul-coreana com os EUA, França, Japão e China.

Desde julho de 2007, a KOFIC gerencia o Film Development Fund, que fornece fundos de investimento para filmes coreanos e desempenha um papel crítico na produção doméstica de filmes.

KAFA é uma escola de cinema de produção. Por meio de programas de treinamento e pesquisa, os alunos produzem três longas-metragens e uma animação a cada ano. Asia Film School, grande projeto da KAFA, oferece um local para cineastas asiáticos aprenderem cinema na Coreia.

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Sobre: Papo Coreira

Bate-Papo Coreia é um portal de conteúdo sobre a Coreia do Sul criado por Letícia e Filipe. Mineiros, casados, fundadores da Tihee, agência de Marketing Digital.

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